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quarta-feira, setembro 05, 2007

Sobre como assumir as falhas

L'Implorante - Camille Claudel


Hoje acordei Deus.
Eu sozinha era Deus.
E nem havia pureza
em tal empreitada.
Pelo contrario,
era pura vaidade.
E não resisti
à dourada possibilidade de subir aos céus
E ficar sentada, não no centro,
na beirada do firmamento.
Observando a humanidade,
lavando as mãos e os meus pecados.
Para enfim descobrir...
e pedir perdão
por viver uma farsa.

Silvia Câmara

terça-feira, maio 22, 2007

Sobre como descobrir um espião

"Looking for love" - Glauce Cerveira


Entre a roda e o chão
Há um tanto de vida
Que persegue a condução
E o sol vai alto.

Vai do amanhecer à noitinha.
E como dois desconhecidos
Percebo-te a me espreitar
Escondido no ônibus.

É como se encontrasse Deus
Mas não falo com estranhos
E tu voltas ao céu.



Sílvia Câmara


segunda-feira, maio 14, 2007

Sobre como deixar a vida


Seja prático!
Arrume sua vida
Enquanto tem tempo.

De repente
Ela pode querer partir

Olha aí
Aproveite para ser ocioso
Não há nada que pague
Um copo de orvalho
Sorvido na fonte.

Sumo de corola de flor
Antídoto para mau-humor.
Em outro século, inspiração.

Quantos floristas com a pena em punho
Jamais mencionaram uma certa florzinha
Que ao anoitecer
Oferece as pétalas ao sonho.

Poeta!
Aprende a ir.

Sílvia Câmara

quarta-feira, maio 02, 2007

Sobre como encontrar a paz

Nasceram hoje na varanda

Havia um exército em mim
Mas de tanto guerrear
Não sei mais se ganho
Ou se ganhando perco.

Na dúvida
Preferi atirar flores.

Quando a trombeta soou
Hasteei a bandeira branca
Agora estou em paz

E meus fantasmas repousam.
Posso cantar vitória.
Sílvia Câmara

terça-feira, maio 01, 2007

Sobre como encontrar um anjo

Tela - The angel - M. Fernanda
Escrevo-me pelas curvas de um verso
E nesta aventura insana
Aparece diante de mim
Um anjo

Não sei bem por onde entrou
Pela fresta da janela
Ou a brisa lhe anunciou
Talvez habite por perto.

Suspira ou sopra um sonho
Tornado tinta no lastro das horas
Pluma de ave
Ou folha caída

De um astro coberto de girassóis
Aguando um mar-dormitório
De desígnios piscosos.

Para falar de amor
É preciso um anjo.
De mãos dadas com ele faço a travessia.

Sílvia Câmara

segunda-feira, abril 30, 2007

Sobre como aquecer uma cabana


Abres a porta dos fundos
E trazes o frio do mundo
Vindo não sei de onde
Chega contigo o aroma.

Cheiro de mato quebrado
De terra orvalhada
Vem contigo o abandono
Das pedras jogadas ao rio.

O peixe chega antes
Anunciado pela urgência
Do vento e da fome

Velejando na rota do sonho
Chegas sem ferir o tempo
E aqueces a casa inteira.

Sílvia Câmara

Sobre como ser dissimulado

photo by Michael Mackul
Tudo o que puder
Dê fim.

Os lençóis sujos
As cartas inúteis
As fotografias de antigos amores.

Seja exatamente como as raposas:
Expie a presa atentamente
E roube seus ovos.

A fim de que não procrie
E não exista rival para ti.
Depois disso,

Poderás dormir o sono eterno
Como uma escória
E a verdade poderá vir à tona.

Sílvia Câmara