terça-feira, fevereiro 27, 2007

O salto

Foto da nascente da Cachoeira da Fumaça - Chapada Diamantina/BA
Sílvia Câmara



Foi exatamente assim
Correndo mundo,
Revivendo em outros povos,
Apreendendo a vida,
Em caminhos às vezes bifurcados
Por veredas nem sempre habitadas
Por estradas quase perdidas
Entre um passo e outro.
Descobri.
Naquele canto da minha sala,
Como um abat-jour antigo
Estava eu,
Guardada.
Na espreita:
Cobra guardando o bote
Aguardando a vítima
Quase pronta para o salto
O que existe dentro de mim?
Escrevo para pular mais rápido.

Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mecejana


Como se abraçasse o tronco duma árvore
Com os braços tão longos de medo.
O vento chegava prenunciando chuva:
Chovia chuva de vento.

Foi lá que puseram os ninhos
as aves de vôo lento.

Revoando e voejando
No branco da luz,
Justo na sombra do tempo.

Era um amanara – chuvoso dia na língua primeira.
Dia de nascer saudade.


Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Assalto à alegria

Escultura de Camille Claudel
( L'Abandon / Sakuntala)



Para Camille Claudel

Eu quero uma alegria Beethoven
Schiller na curva do tempo
Corais em conchas acústicas.

Eu quero uma alegria água
Em ondas de tubos espessos
Farra de espumas em desleixo
Molhando as coxas da praia.

Eu quero essa alegria doce
Ternura e carne, alvoroço
Modigliani ou Monet em esboço
Camille ao vivo e a cores.

Eu quero uma alegria jogo
Serpente encantada do novo
Alvorecer de manhãs em agosto.

Eu quero essa alegria aos saltos
Princesa de toda galáxia
Luxúrias em cometa de prata
Cinismo de vida a jorrar.

Mas eis o momento em chamas
Gemidos, o roubo, o assalto,
E esse dia bendito
Deixou a alegria pra lá.

Somos mesmo
Reféns
Dos que amamos.

Da minha amiga-poeta-pernambucana Cláudia Cordeiro.
É verdade, somos mesmo reféns dos que amamos!!! Disse tudo, Poeta.)


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

...e eu fico fazendo de conta que foram feitas para mim...presunçoooosa!!!

Foto - Silvia Câmara- Tela de Floriano Teixeira - daqui de casa

Silvia, cicio em si, brisa levinha,
susurro no silvado, silva poética,
no silêncio de um vôo de andorinha,
a esquiva graça e a sugestão estética.

Carlos Drummond de Andrade - "Dedicatórias para brotos"


Muitas vezes, de repente
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente

Manoel Bandeira - "Sílvia Maria"
( Poesia oferecida por minha amiga-poeta Conceição Pazzola - apesar de que não sou Maria, sou Helena!)


08:45 - hora em que nasci, depois de a mamãe ter ido umas três vezes (alarme falso) ao Hospital Militar, em Fortaleza- Ceará

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Transporte de palavras

Foto- lalocomotiva.org

Nossas palavras têm correspondência com o mundo?
Quero saber quando e onde elas se encontram.
Numa esquina da vida, talvez.
Ou é o coração quem fala mais alto?
De qualquer sorte
O que existe entre a prosa e a poesia?
Por que será que o poeta
Mesmo sonhando prosa
Faz seu texto em poesia?
Nesse longo caminho percorrido
Onde nem tudo são flores
O que haverá para lançar sementes?
Como disse Drummond:
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo,
Meu coração.
Dá licença?


Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dois de fevereiro


Diz-se que em fevereiro crescem flores no mar.
Sílvia Câmara
Maria Bethânia, no cd Memória das Águas, canta: “Amores são águas doces/ Paixões são águas salgadas/ Queria que a vida fosse/ Essas águas misturadas.
É lindo!!!