segunda-feira, abril 30, 2007

Sobre como aquecer uma cabana


Abres a porta dos fundos
E trazes o frio do mundo
Vindo não sei de onde
Chega contigo o aroma.

Cheiro de mato quebrado
De terra orvalhada
Vem contigo o abandono
Das pedras jogadas ao rio.

O peixe chega antes
Anunciado pela urgência
Do vento e da fome

Velejando na rota do sonho
Chegas sem ferir o tempo
E aqueces a casa inteira.

Sílvia Câmara

Sobre como ser dissimulado

photo by Michael Mackul
Tudo o que puder
Dê fim.

Os lençóis sujos
As cartas inúteis
As fotografias de antigos amores.

Seja exatamente como as raposas:
Expie a presa atentamente
E roube seus ovos.

A fim de que não procrie
E não exista rival para ti.
Depois disso,

Poderás dormir o sono eterno
Como uma escória
E a verdade poderá vir à tona.

Sílvia Câmara

quinta-feira, abril 26, 2007

Para Marcela





Queria saber dizer do meu amor
Hoje mais do que em muitos dias.

Lembro que quando chegaste,
Aquela noite de abril era só alegria
- Qual manhã de primavera -
E minha Lua nascia.

Qualquer esforço em buscar palavras
Não atenderá ao meu desejo (que não finda)
De expressar esse sentimento:
Amor por uma Lua tão linda.

Imenso. Intenso

Como uma alada fantasia de sons
Marcela é forte: retine como bronze,
Luz súbita que nos captura em vários tons
E, no entanto é açucena suave de manso olhar.


Quero, como antes, servir-te amor em ramalhetes,
Presentear-te com notas musicais
E com elas, cantarás a cantiga do infinito.
Clássicos, rock, reggae, pop, rimas, versos, o soneto mais bonito.

Farás música de canto de pássaros,
De céus e flor
De córregos e rios,
De amor eterno e dores de amor.

Serás barco que leva o rio
Condutora do próprio destino.
Eis Marcela — sonho sonhado junto,
Estrela emprestada do céu na terra luzindo.

Preciso da voz do Poeta para dizer que
“A luz que vem de Marcela
É a luz que nasce e canta
Serena no peito dela...

A luz tão luz de Marcela
— luz que é sombra da luz dela—
Nasce nela, vive dela.”


Guardadora fiel de segredos quase encantados
Espírito antigo arco-iriscando nossa vida
Leal companheira
De plantas, pesca, compras, bichos de espécie sortida.

Tão muito,
Tão tudo,
Tão bela,
Tão esplendidamente nobre,

Assim é o meu bebê, Marcela.

Feliz aniversário, Lua
E com estes escritos, mais uma vez, há 17 anos dou-te o meu amor.




Sílvia Câmara

terça-feira, abril 17, 2007

Constatação

Tela by SilosGalery


Por que dizer que o outro não existe?
Em algum momento da vida
É preciso dizer que minha existência é intransferível.
Estou suspensa diante de uma infinita beleza:
O mundo.
Não fossem aquelas pessoas
Ele seria lindo!

Sílvia Câmara

Silêncios



Naquele fim de mundo
Habitado por ermos silêncios
Poderia ter nascido qualquer sentimento.
Mas o que acontece dentro da terra
Não dá para ser pensado antes.
É como agora:
Há dentro de mim uma vontade
De dizer calada,
Só com a alma
O quanto ficou daquele setembro.


Sílvia Câmara

segunda-feira, abril 16, 2007

Um poema-siará

Tela de Jaime Carbonell


Um dia nasci siará
Eram tantos sonhos de ave
Que atrapalhavam a manhã.

Seria um vôo-alvorada
Noite toda fazendo serão
Nas palhas-casa da bananeira.

Quando cresci siará
Cavalgava o mato alto
Catando cajus e jatobás.

Herança rezadeira
Doces de narupemba
Goiabas de minha avó.

Cacimba vazando no inverno
Carreira de camaleão
Pulando de galho-em-galho.

Ramagem que voa ao vento
Um dia parti siará
Reluzindo na garganta um grito.

Bússola voltada ao norte
Raiz em duna plantada
Aportando em outra duna.

Do cantar forte da jandaia
Às brancas areias de águas escuras
Um dia morri siará.

Sílvia Câmara

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segunda-feira, abril 09, 2007

Sêo Câmara

Francisco Nobre Câmara é o 1º , de olhos puxados. Esta foto foi tirada na véspera de embarcarem para a Itália, em 1943/44. O outro, é seu amigo Cícero, fiel companheiro de muitas estrepolias de caserna.

Nasceu em Pedra Branca, num lugarzinho lá no interior do Ceará, primogênito de José Casemiro e Lúcia Nobre Câmara. Descendentes de portugueses e índios-caboclos. Aos seis anos tornou-se órfão de pai.

Por conta do novo matrimônio da mãe com o tio, determinou, naquela pouca idade, morar com o padrinho. Daí para aprender todos os ofícios foi um pulo. Inteligência privilegiada, memória fantástica e bom-humor invejável. Resolveu ir voluntariamente "defender o Brasil" na 2ª Guerra Mundial. Foi e voltou, a prova somos nós - os 5 filhos.

Adorava casa cheia e mesa farta. Amanhecer os domingos com música e ele cozinhando as famosas "coxinhas especiais de galinha", levando em nossas camas uma vitamina de frutas que continha mais de um milhão de nutrientes, para engordar as crias.

Contar causos era sua especialidade. A outra era fazer amizades. Não podia ver uma mulher bonita, mas jurava ser fiel: Deus sabe!

Medo não existia no seu dicionário. Solução, sim. Adorava nos dar livros de presente. Homem de-sete-instrumentos, até hoje utilizamos os ensinamentos dele em jardinagem, construção, amizades, culinária, eletricidade, gentileza, etc, mas o que a gente precisa mesmo colocar em prática é essa maneira que ele tinha de " BRINCAR DE VIVER".

Parabéns Sêo Câmara! Hoje são 83 anos. Aos 74 deu tchau pra gente e foi brincar no andar de cima.
Valeu, Pai!! Um beijo da sua Pindoba

segunda-feira, abril 02, 2007

Depois de dizer está dito

De tudo o que aprendi
Ficou uma importância:
A palavra é que faz a hora.
Mudam as estações, muda o mundo
Muda a vida.
A palavra dita permanece.
Com o tempo, amarelece na lembrança
Chega a ficar quase branca.
Ainda assim é nódoa.

Sílvia Câmara