quinta-feira, novembro 30, 2006

Saber



Achei que sabia tanto,
Mas o tanto que sei de mim
não dá uma gota de mar.

E nem sei quando a maré enche ou vaza .
Só sei que é maré.
Marulha e mareja.

Perguntei a uma concha
Ela também não soube me responder.
Se ela que nasceu lá não sabe

Imagina eu, que só fico à beira.
Se não sei de mim
Como saberei eu do mar?

sábado, novembro 25, 2006

Brisa















Foto by Sílvia Câmara

Sois de vento, sois de ar, brisa cativa.
Como cativaste meu coração margem?
Ai que não sei, anjos voavam ali talvez.
Sou pássaro: olha as asas já me nascem.

De que importa isso coração-ave?
Não vês que o sopro é a única quimera
Dessas que já não mais há quem tenha a chave
Para abrir o céu em plena primavera?

É que vivo de vento brisa querida
Liberta-me para além dessas paragens
Deixa-me seguir o curso sem destino

Da fantasia, do sonho... desatino?
Preciso voar mundo, colher aragens
Para o sopro transformar-se: eterna vida.


Sílvia Câmara

sexta-feira, novembro 24, 2006

La escritura


La escritura es para mí un intento desesperado de preservar la memoria. Soy una eterna vagabunda. Por los caminos quedan los recuerdos como desgarrados trozos de mi vestido. De tanto andar se me han desprendido las raíces primitivas. Escribo para que no me derrote el olvido y para nutrir las desnudas raíces que ahora llevo expuestas al aire.

Isabel Allende

H. - Martha Galrão

A amiga dizendo:
Você espera um príncipe encantado!
E eu esperando,
pois sabia.

Hoje escuto seus passos no quintal.
Toda vez que ele vai lá fora
faz lua cheia.

Rosa?

Às vezes batia uma sensação estranha. Foto by Sílvia Câmara
Como se piedade sentisse.
E, sem que ela visse,
Colocava na sua janela uma rosa.
Ficava à espreita:Ela pegava na flor e chorava.
Ele, de longe – ele sorria.
Caminhando calmamente na calçada.
Outras vezes, ainda na espreita,

Percebia que ela,
Com a rosa no coração

Louca e desvairada Sorria – coitada!
Ele chorava...
As fases da rosa
As fases da lua
Até o romper da aurora.

Verônica Aroucha

Canoa Quebrada



" Um arco-íris de ar em águas profundas...
Removente ave, assim te somo a mim:
de redes e de anseios inundada" Hilda Hilst

Amor


Há 24 anos começamos, César e eu, a namorar nesse lugar lindo - Canoa Quebrada/CE.
Este ano, em abril, voltamos lá e trocamos alianças com o símbolo da lua e da estrela, compradas na praça - e fizemos confirmação de amor.

quinta-feira, novembro 23, 2006



De onde emerges,
Tempo,
Nos subterrâneos de minha mente?
Entre...
Veja as espirais de fumaça
Invadindo castelos medievais...
De onde emerges, tempo?
De que dourado
Teceste
Os fios
Da memória?
Em que nebulosa
Se esconde
Tamanho medo?
As garras do girassol
Explodirão esta bolha!
Olha...
A menina desce as ladeiras
De Olinda,
Sentindo subir nos cabelos
O vento das recordações
Das ruínas...

Carlos Maia

Foto by Sílvia Câmara 2006

009 - Yacala

Yacala tarda a compreender
que a alegria não tem história
e toda festa sabe a um súbito
curto-circuito na memória;

mas, trégua nas trevas, a orgia
tornou-se a sua liturgia,

e ele a exerceu subindo escadas
de tábuas meio apodrecidas,
junto com novos camarads,

para beber, à luz minguante,
a última gota dos instantes.

in "Dois caminhos e uma oração" do genial poeta Alberto da Cunha Melo - uma narrativa-travessia, fantástica, da dor de viver.

A memória de uma Terra Sonâmbula – análise da obra de Mia Couto


resumo:
O presente artigo tem como objeto de análise o romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula, publicado em Moçambique, em 1992, no final das lutas pela independência do país. O viés escolhido foi a influência da memória na construção poética, utilizando-se como referencial teórico o conceito de memória individual e coletiva de Maurice Halbwachs, de percepção e imagem de Henri Bergson, bem como de imaginação e imagem literária de Gaston Bachelard.

Palavras-chave: Terra Sonâmbula; Memória; Mia Couto; Tempo; Narrativa.

“— Vou te contar minha estória, estrangeiro.— Kindzu, emendei.—Kindzu, aceitou ele. E começou a narrar. Sua estória deve ser lembrada."Mia Couto

Refletir sobre a memória traz um outro conceito: o tempo. Observa-se que a presença do mito numa obra literária desempenha uma função, revela uma visão de mundo. Em alguns casos, como na escritura de Mia Couto, a memória representa uma forma de resistência, apresenta-se como mediadora no percurso do pensamento sobre identidades cultural e nacional. Revela a capacidade de evocar o passado comum através do presente, como se a memória diária falasse ao leitor.Entretanto, para se falar de memória na construção poética de Terra Sonâmbula, é necessário imiscuir-se um pouco em tal narrativa: trata-se de um percurso fantástico vivido entre as neblinas de uma cultura povoada de sonhos, de lendas, de ilusões e de feridas e cicatrizes de guerra. Sob esse prisma, Mia Couto constrói um projeto de repensar a sociedade moçambicana, tendo em mira que cria ficção a partir de uma condição real, transformando a leitura num ato socialmente simbólico, sem, no entanto, tornar-se panfletária. O autor traz as camadas populares para o centro do debate e consegue demonstrar de que modo o campo literário se oferece como um espaço privilegiado para a discussão dos campos político, histórico e social, e não somente como um entre - lugar de entretenimento.
Convém, também, esclarecer que, segundo Carmem Lúcia Tindó Secco (1999, p.10) “Moçambique é um país que tem, impregnados em sua memória histórica, traços de culturas várias: a dos africanos de origem banto que habitavam essa região da África Austral; a dos árabes que, antes dos portugueses, se instalaram na Ilha de Moçambique e comerciaram com as tribos negras do continente; e a dos lusitanos marinheiros, que, comandados por Vasco da Gama, aportaram nessa ilha, no ano de 1498”.
Neste estudo sobre o papel da memória no processo escritural de Mia Couto vai nos interessar a dimensão pessoal da memória, aquela que trata da introspecção e do olhar do sujeito coutiano para o passado. Entretanto, não se pode olvidar que a memória, na obra do autor, assume também a dimensão coletiva e social, na medida em que revela as alegrias, as angústias e as vivências. O olhar é social e universal, busca a inteireza para além dos aspectos que ocultam a fragmentação do sujeito. Diz claramente, contesta o fingimento e tenta resgatar o valor da tradição oral de contar histórias.
A memória é o fio condutor da narrativa. Conforme as lembranças aparecem, os escritos vão acontecendo. “Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz”. É ainda pela memória que as convenções que permitem o fenômeno da significação do uso das línguas naturais se apresentam: os estados e processos que dão significado às coisas. Como um jogo de claro-escuro, de presente-passado e de presença-ausência: “O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações”.
Sílvia Helena Câmara Martinez - PARTE 1

O cheiro de rosmarino

Em casa cada vez o ambiente me parecia desfavorável, era preciso achar uma saída. Completara vinte e dois anos, sonhava encontrar rumos diferentes do mundo estreito onde nascera, sem perspectivas animadoras. Sentia a premência de fugir o mais depressa possível, naquela terra restariam apenas idosos, mulheres casadas e crianças. A juventude impaciente e afoita se enredava em sonhos românticos alimentados pelas histórias repletas de heroínas e seus amores impossíveis com os cavalheiros ricos, belos e corajosos, prontos a livrá-las desse mundo de gente feia e de pobreza, longe do demônio da maldade. Tal e qual arapuca de pegar passarinho na mata; quais alternativas nos sobravam, senão acalentar ilusões?
Assim é o início da 3ª parte de " O relógio de parede e o cheiro de rosmarino" da querida poeta recifense Conceição Pazzola.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Cantos de outono




CANTOS DE OUTONO acompanha a saga do escritor Isidore Ducasse desde os dois anos, quando testemunha o suicídio de Célestine, sua mãe, ocorrido na noite natalina de 1846, até aos 24 anos, quando o jovem poeta ingere um coquetel mortífero e entoa seu Canto derradeiro.Isidore deixou poucos registros de sua existência além de seus livros. Ruy Câmara faz uso de seu profundo conhecimento da obra e do mundo do poeta para reconstituir, ou reinventar, sua vida e o cotidiano europeu da época.

22 à 25 de novembro/2006: Barcelona - Espanha - Conferências no VIIIE COLLOQUE INTERNATIONAL SUR LAUTREAMONT.
l'Université Autonome de Barcelone .

Parabéns mais uma vez, irmão.

O vôo

É da capacidade de fabular
que nasce.

A vida leve, a vida louca, a vida.
Vai andarilho,
segue a andorinha,
com o passo leve,
com o passo livre
e voa.


Sílvia Câmara

terça-feira, novembro 21, 2006

Diário de bordo

Tudo acertado. Três passagens compradas para o dia 31 de outubro — Dia das Bruxas. Ainda bem que foi para esse dia, pois se fosse para o dia seguinte, talvez a viagem já tivesse iniciado mais estressada. Explica-se: depois do acidente que vitimou cento e muitas pessoas, os controladores de tráfego aéreo passaram a trabalhar com um número inferior de vôos, para garantir a segurança dos usuários e a sanidade mental deles.
Horário marcado, chegada ao aeroporto para o check-in. Qual não foi a surpresa ao perceber que a filha mais nova havia levado, por equívoco, a identidade da irmã do meio. Como é que embarca desse jeito? Ainda bem que o muito-gente-boa motorista do sogro estava pelas redondezas, correu em casa e trouxe a carteira de identidade correta. Ufa! Por um triz.
Tudo resolvido, aguarda-se por meia hora o embarque, iniciava-se a operação que transformaria os aeroportos do país num caos. Atenção senhores passageiros, preparar para o embarque. Vamos.
Duas horas depois, vejo, do céu, o chão da minha terra. Aquele mar de um verde intenso, lá, chamando, vemmmm, vemmmm, vemmmm. As jangadinhas ao longe, cortando o infinito. Parecia até que de um momento para o outro podia aparecer o guerreiro branco, singrando aqueles bravios verdes mares.
Aeronave no solo. Pega bagagem, saimos. Lá está ela, ansiosa, aguardante, num pé e n’outro: a mãe, feliz da vida porque a casa iria outra vez ficar cheia. Nós e todo o restante da família que, com certeza iria nos visitar. Como nos velhos tempos, casa repleta, conversas, música, risos, gargalhadas, uma emoção aqui e ali. O almoço caprichado. Maria pajeando sempre. ‘Ta bom isso, dona , quer mais um pouquinho daquilo, seu. Ô minha flor de bugari, você não quer mais uma coisinha disso?’ Casa de mãe é assim. Eterna festa para os filhos. Muito papo, café mais tarde, bolo, queijo coalho, bolachinha romana e carinho, esse por demais.
O irmão mais velho, desta feita ,ficou devendo a peixada. Enfermou-se, uma gripe misturada com alergia que só tossia e fungava. Mas deu para colocar a conversa em dia. Antes do aparecimento da influenza, tertuliamos uma noite inteira regada a uns oito ou doze anos (naquela hora a idade não fazia muita diferença). Projetos sendo construídos e compartilhados. Outros, já realizados servindo de painel.
O irmão do meio, mania de provedor, levando sapotis e mangas nascidos na casa antiga e até hoje cuidada por ele. Leva e planta lá na Bahia. As frutas vieram, claro, os caroços já estão no aguardo do plantio.
A tia solteira, a mais faceira das irmãs, fazendo sala todos os dias, feliz da vida. Os sobrinhos indo e vindo o tempo inteiro. Como se uma lente de voltar no tempo tivesse sido acionada e surgisse uma réplica de anos atrás. A tia a ver duas gerações de sobrinhos.
Noite inteira proseando com os amigos antigos, ouvindo música e confissões ao sabor de um vinho macio e rubro.
Mas a grande descoberta foi uma carta antiga, garimpada, ou melhor, surripiada pelo irmão mais velho, dos pertences do pai voluntário de guerra. Data a carta de dezembro de 1944 e narra a angústia da partida para a guerra, a entrega dos soldados à embriaguez, as tristezas. Relato pungente, de um jovem de vinte anos apenas, rogando à família que, por sua vez, clame aos céus para que ele volte à terra natal.
É sempre assim, cada vez que vamos, fica a vontade de voltar. Esse é o bom da vida. Poder ir e vir, saber que as baterias poderão ser recarregadas, dar de nós e trazer pra gente. A gente, a nossa gente. Assim que der, volto lá. Mais vale uma tarde jogando conversa dentro, sentados num sofá, num banco, num muro, numa varanda, do que mil sessões de terapia.
Hora de voltar, que a casa de cá espera.

Sílvia Câmara - 2006

A mentira, o desejo e o sonho


Havia um ângulo de tensão em seu olhar
e nós estávamos embaixo do viaduto
respirando os primeiro raios do sol.

Foto by Sue Anna Joe

O velho caudilho havia morrido ontem
e, no entanto, estava mais vivo
do que nunca.

Um mendigo dormia
imune à eletricidade da manhã
e eu busca uma razão
para quebrar a inércia.
Você arrotava cuba-libre,
eu tinha medo da solidão,

metia as mãos nos bolsos
e coçava os testículos.
O dia nascia impune
na praia do Pina
iluminando as nossas
caras cansadas
e eu sentia pena
das putas do Bar da Central.
O meu coração era um fio de nylon
e a cidade bocejava preguiçosa.
O professor havia ido embora
sem conseguir nos iludir
com a sua falsa alegria tropicalista,
péssimo ator que era.
Emmanuel estava conosco
e o diabo também.
Éramos os bobos da corte
e não queríamos ser degolados.
Éramos a personificação
da mentira, do desejo e do sonho.

Clóvis Campêlo
Recife, 1985

O Sal da Língua

Tão simples e tão absolutamente linda!!!


"Uma casa que nem fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia."


Eugénio de Andrade

50 Anos bem lidos

"João era fabulista fabuloso. fábula? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar.”Carlos Drummond de Andrade - “Um chamado João Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, essa figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, carão de cão: determinaram era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia.

Vento Sul - Thiago De Mello

Ser capaz de crescer como um rio
Que leva sozinho
A canoa que se cansa
De servir de caminho
Para a esperança;
E de lavar do límpido
A mágoa da mancha.
Como o rio que leva e lava
.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos


e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Carlos Pena Filho

Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos das últimas estações,
a voz das velhas damas, os primeiros sapatos,
certas tabuletas, certas ruazinhas laterais - a cor do tempo...

Mário Quintana

Não conheço nada do país do meu amado











Não conheço nada do país do meu amado.
Não sei se chove, nem sinto o cheiro das laranjas.
Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada.
Não sei que tempo era.

O meu coração é grande e tinha pressa.
Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca.
Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia.
Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo.
O meu amado não me disse nada do seu país.
Deve ser um estranho país o país do meu amado,
pois não conheço ninguém que não saiba a hora da colheita,
o canto dos pássaros o sabor da sua terra de manhã cedo.
Nada me disse o meu amado.
Chegou.
Mora no meu país não sei por quanto tempo.
É estranho que se sinta bem e parta.
Volta com um cheiro de país diferente.
Volta com os passos
de quem não conhece a pressa.

Ana Paula Tavares - in «O lago da lua», Lisboa, 1999

08-11-1915

Nunca sei como é que pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

Alberto Caeiro – Ficções do interlúdio

Tempo


A moça corria por entre os pingos da chuva,
Rápida, l
é
p
i
d
a
E o tempo passava.
O sol surgia por entre as frestas de nuvem,
Morno, l
e
n
t
o
E a manhã já virou tarde.
Uma criança passa, pára e diz:
Olha o raio de ouro que caiu da nuvem.
Abaixa-se, pega um caco de vidro e segue.
A chuva passa
A moça pára
A criança corre.
Só o tempo — entre todas as coisas — não p
á
r
a.


Sílvia Câmara

Lavagem

A chuva vem para lavar a terra
Lavar os campos,
Molhar as plantas.
Encher as fontes.

Chove, chuva,
Lava a alma humana.

Sílvia Câmara

terça-feira, novembro 14, 2006

4º motivo da rosa - Cecília Meireles

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
só longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Foto by Sílvia Câmara 2006

Cravínias de Alhambra

Sílvia Câmara 2006

De pássaros e vida

Certo pássaro, invisível quase ausente,
vai e segue o seu curso, instantâneo e só.
Amanhecer e gaivota se entrelaçam,
dançam na claridade azul do arrebol

Vai andorinha, segue o sol infinito.
Saibam, pois, que a vida alcança o sentimento
e segue o seu curso rápido e eterno.
Para além da alvorada e do firmamento.

Assim a vida inaugura uma passagem.
Como a meia-noite se transforma em dia.
A ave alça vôos para outras paragens.
Alimentando a espera de um amor tardio.

Também o poeta assume o risco e sonha.
Viver é alçar um vôo errante e largo.
Miraculosamente, sopro tristonho
de uma liberdade em vida encerrada.

Sílvia Câmara

Na terra de Gaudi

segunda-feira, novembro 13, 2006

Ensinamento - Adélia Prado


Minha mãe achava estudo
A coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
Ela falou comigo:
‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

O ofício

Bom mesmo seria se houvesse.
Uma fala
que rasgasse o tempo,
quebrasse os medos,
atravessasse o dia como quem
percorre um jardim
e despertasse borboletas.

Assim uma palavra.
Dita sem pensar,
Um devaneio gêmeo,
Fazendo festa na praça.
Em terra reconhecida de infância.
Entre paredes e árvores suas.
Uma memória e uma fantasia.

E gera.

Sílvia Câmara

O querer


Porque nem tudo que se diz, é.
E nem tudo que se pensa, sabe.
Quero ser chuva e sol.
Branco e preto
Rir e chorar, melhor de contentamento.
Abencehaje de Alhambra
Vôo rasante e certeiro.
Mergulho, céu e mar
Cecília,
Adélia,
Clarice
Florbela
O paraíso de Baudelaire.
Se fosse uma rosa, Guimarães.
Um sopro, Pessoa.
A solidão de Márquez
De Gullar, toda poesia.
Criança, Quintana
Manoel, para brincar com Barro.
Castro Alves flutuante
Condor Neruda, confesso.
Andorinha de Bandeira
La Mancha de Cervantes
A lira de Azevedo.
De Camões uma redondilha.
O beijo eterno de Bilac
Eternamente Drummond.


Sílvia Câmara