quarta-feira, dezembro 12, 2007

Devolvam-me meu nome

Tela - Pietá - Frida Kahlo

Havia um tempo
Quando o tempo nem existia
Era tão longe e no entanto
Parecia tão perto.
Sucedeu que o homem esqueceu-se de si.
Já não se lembrava do próprio nome.
E andava pelas ruas clamando:
Alguém me chame, pelo amor de Deus.
Digam o meu nome
Para que eu desenlouqueça.
Dias e noites a fio rogo aos céus,
Uma alma vivente ou penada
Que me devolva o que sou,
Avive meu nome.
Nem que seja apenas
Para colocá-lo na minha lápide.

Sílvia Câmara

segunda-feira, novembro 19, 2007

Terceiro repouso em Andrômeda



De todas as partes da água
A mais difícil é a chegada à foz
Deixa o berço e alcança o todo,
A parte maior do mundo.
Esquece-se do nascedouro,
Deslembra das margens,
Deve alegrar-se com o percurso
E agonizar no encontro.
Sentir nos ombros essa saudade
Do lastro areento da nascente.
Como um fauno adejado de cristais
Que se deixa transpassar por colibris.
Assim o medo corroído pela beleza da cena
Atravessa toda a extensão e aguarda
A hora exata do encontro fatal.
Nessa hora uma estrela refulge.

Sílvia Câmara

terça-feira, outubro 23, 2007

Fragmentos 4

La remendadora - J.E. Vuillard, 1891

Um dia um poeta alcunhou-me: poetisa-profunda.
E eu fiquei pensando no tamanho desse codinome.
Foi necessário descer aos porões de mim,
Virar o âmago pelo avesso.
Percorrer as subterrâneas vias, sem corda ou escafandro.
E trazer à tona — com a ajuda apenas de Deus—
A corrosão que aflige a alma
Para fazer nascer um poema.



Sílvia Câmara

sábado, outubro 20, 2007

Fragmentos 1

pear in beetroot sauce

Não me dou conta de que tenho que urdir palavras para redimir o pensamento.
Escrever tornou-se um confessionário: porto de esperança e salvação.
Acasos não existem. Há o querer.
Tão rubro como uma beterraba.
O bom senso diz que beterraba não é uma palavra poética.
Mas é a cor que escolhi para dar conta do querer.
Às vezes ela desbota.
Sílvia Câmara

domingo, outubro 14, 2007

Primeiro retorno anunciado


Eis que o retorno é manso.
E a mansidão ajudou a soltar a voz
Entalada no peito:
Um dia eu viro só vento,
Nuvem clarinha algodoeira
Salpicada de entretantos.
São tantos os versos que choveriam...
Aqueles versos mais sutis
rabiscados no espaço
rendilhando o céu.
Mansos versos para dizer
Que a eternidade é imensa
E parece ser tão cruel.

Sílvia Câmara
(Após saber que o poeta Alberto da Cunha Melo havia encerrado sua jornada nesta vida na noite de 13/10/2007)

quinta-feira, setembro 27, 2007

Férias

Férias até o dia 14/10/07.
Até a volta!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Antologia Poetas Independentes

Enfim, o "nosso rebento" saiu. Dia 28/09 haverá tarde de autógrafos na Fliporto - em Porto de Galinhas/PE.
Eu não estarei por lá, única e tão somente porque tínhamos férias programadas a partir de amanhã e uns ventos decidiram me levar a outras paragens...
Parabéns, PI. Vida longa.
Agradecimento especial a Cláudia Cordeiro, Clóvis Campêlo, Conceição Pazzola e Tânia França , pela dedicação e carinho.
Sílvia Câmara

Transcrevo abaixo o pronunciamento de Clóvis Campêlo, nosso querido moderador do grupo.

O Grupo Virtual Poetas Independentes, do portal Yahoo, foi criado, em março de 2006, com a finalidade de possibilitar um intercâmbio entre poetas, escritores e quaisquer outras pessoas interessadas em literatura. Conta hoje com mais de 70 associados espalhados por diversos Estados do Brasil (Bahia, Brasília, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Tocantins) e até mesmo do exterior (Açores e Moçambique).

Nesse ano e meio de convivência literária, o grupo cresceu em número, fraternidade e exercício poético, decidindo saltar do espaço virtual da grande rede para as páginas de um livro. Essa decisão resultou numa Antologia, com a participação de quinze poetas, a maioria estreante em livros.

Entre os participantes, a presença do consagrada e premiado Alberto da Cunha Melo - http://www.albertocmelo.com/ - poeta pernambucano da Geração 65 e vencedor do Prêmio Poesia 2007 da Academia Brasileira de Letras, com o livro O Cão de Olhos Amarelos, e de Luiz Guimarães, médico, músico e compositor renomado, que desenvolveu os seus dotes poéticos dentro do grupo.

A Antologia conta ainda com a participação ativa e especial de Cláudia Cordeiro, editora dos sites Plataforma Para a Poesia - http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/ - e Trilhas Literárias - http://www.trilhasliterarias.com/ - responsável pela criação e arte do trabalho gráfico das capas.

Quem prefacia a Antologia é Ermelinda Ferreira, que a despeito do seu currículo acadêmico - é doutora em Letras - pulula brilhantemente com seus ensaios na grande teia a acredita que "A escrita digitalizada, em ambiente de ligação em rede, goza da mesma prerrogativa da fala, isto é, do estatuto do direto, do atual, do simultâneo, simulando assim a natureza presencial da voz. Goza também da prerrogativa do dialogismo, esse caráter reticular da comunicação que arrasta a escrita num movimento de dissolução dos corpos, propiciando a confluência de espaços diversos num mesmo tempo".

A ela e todos, especialmente a nossa organizadora, Tânia França, que tornaram possível este salto da rede virtual para as páginas do livro, nosso muito obrigado. Aos demais, o convite para que participem do Grupo Virtual Poetas Independentes - http://br.groups.yahoo.com/groups/poetasindependentes.

Depois de um pré-lançamento na Festa do Livro, no 5º Festival Recifense de Literatura, a Antologia será lançada na Fliporto, na tarde do dia 28 de setembro.

O livro também poderá ser adquirido através do site da Editora Livro Rápido - http://www.livrorapido.com.br/.

Clóvis Campêlo
Poeta e Moderador do Grupo
http://cloviscampelo.blogspot.com/
Recife, 2007

quarta-feira, setembro 19, 2007

Prêmio Literário



Tantas canções de Iandaia atravessou o Atlântico e trouxe este prêmio,
vindo lá da lusitana terra.
Estava à disposição desde março, mas somente agora em setembro o recebi.
Sílvia Câmara

quinta-feira, setembro 13, 2007

Sertão do Canindé

O conterrâneo Bôsco postou esta maravilha em seu blog, com a devida permissão, posto-a aqui no Brisa, reverenciando o sertão cearense e a poesia que ali habita.



Foto: Ocaso nos arredores de Acopiara/CE- Sílvia Câmara-2005

Ao poeta Moacy Cirne, amante dos sertões e azulências.

Com dedos de antigamente
debulho o tempo
como contas de um rio
encantado
que corre plácido e azul
sob meu olhar
e
este sol
que me abrasa

Há uma paz de aves adormecidas
e de cantigas de sereias caboclas
no imenso mar deste sertão
que me habita.

Bôsco Sobreira

quarta-feira, setembro 05, 2007

Sobre como assumir as falhas

L'Implorante - Camille Claudel


Hoje acordei Deus.
Eu sozinha era Deus.
E nem havia pureza
em tal empreitada.
Pelo contrario,
era pura vaidade.
E não resisti
à dourada possibilidade de subir aos céus
E ficar sentada, não no centro,
na beirada do firmamento.
Observando a humanidade,
lavando as mãos e os meus pecados.
Para enfim descobrir...
e pedir perdão
por viver uma farsa.

Silvia Câmara

domingo, setembro 02, 2007

Noturno em surdina

photo by galaxy


A mão que tece uma plúmbea manta,
cor seráfica de chuva,
Também é capaz de desmanchar
As bífidas tranças alinhadas
Na cabeca da noite.
Penduradas no cordão virgulado da lua.
Na vertigem de acompanhar o infinito,
Encobre-se nos noturnos ombros,
Entornando a luz que vaza serena.
Elegíaca mentora tapeceira
Harpeja estrelas numa láctea via
Solfejando brilhos no esplendor celeste.
Goteja sons no alvorecer aéreo
E uma sinfonia eterna caladamente acorda.

Sílvia Camara

terça-feira, agosto 28, 2007

Tragam as vasilhas

Recebi esta crônica do grupo Poetas Independentes, pedi permissão ao Geraldo Pereira e ei-la postada aqui no Brisa , com a mesma foto do original.



Sou do tempo dos encantadores pregões, de antigos vendedores que ofereciam seus produtos com a musicalidade da voz, grave ou aguda, a depender de cada um. De poetas do dia-a-dia das coisas, cantores das ruas, com rima ou sem rima, contanto que mostrassem a variedade ou a qualidade e obtivessem o desejado retorno das moradias de classe média. De meninos ou de meninas, das senhoras bem trajadas ou daquelas de roupas cosidas e até cozidas com a crueza da chita, que nas casas serviam como domésticas, tangidas dos canaviais distantes. Como esquecer do que me falou Sílvio Costa, que pras bandas de Pau Amarelo corteja saudades: “Espanador/Vasculhador/Colher de pau/Esteira d’Angola/Rapa Coco/E grelha/Eu tenho quartinha”. Foram coisas assim, mais do que puras, que preencheram tardes mornas de sábado. Ou foram os acordes tirados da gaita do amolador de tesouras, que a tudo amolava ou as notas do homem do pirulito que embalaram sonhos e devaneios da meninada de outros anos ou de outras eras.Detesto essa modernidade do hoje, do microfone instalado em velhas e carcomidas kombis anunciando ovos e verduras, uvas e bananas, laranjas aos borbotões e abacaxis em quantidade. Até o sorvete de fato artesanal no meu antes vem sendo comercializado assim: "Olha o sorveteiro barateiro! Dez bolas por um Real! Tragam as vasilhas! Tragam as Vasilhas!". Ninguém agüenta mais a repetição, que lembra um certo apresentador de televisão dizendo: "Abram as cortinas! Abram as cortinas!". E se vou mudar de casa, deixando de assistir neste canto para morar num recanto, o Rosarinho, lugar de onde emergem muitas das reflexões de Fátima Quintas - o Quintas da Jaqueira -, não me livrarei do sorveteiro barateiro. Dia desses por lá ouvi a indiscreta loa e mais do que perplexo confidenciei aos meus botões: "Eu não acredito numa coisa dessas!". Mas, é verdade, responderam! Lamento o desaparecimento de toadas como esta: "Eu tenho lã de barriguda/ Para travesseiro/...". Ou : “Olha a bolinha de cambará/Dois pacotes é um vintém/...”O cavaquinho de agora vende-se aos pacotes, enrolados no plástico translúcido, sem a sonoridade do velho triângulo, equilátero, sobretudo, que pendia do indicador esquerdo, tocado, na mais sincrônica das formas, com vareta bem temperada de aço acalmado à mão direita, a percorrer cada um dos lados, tirando as notas dos desejos infantis. E o cuscuz matinal, despertando as famílias com o silvo forte do vendedor, em tudo, madrugador? Desapareceu, quase, deste Recife contemporâneo, desses dias que correm mais que aqueles, de criança! Um ou outro remanescente percorre as ruelas das periferias urbanas, sustentando tradições! O sino do vendedor de bolos, de broas e de outros acepipes, que carregava na cabeça a produção doméstica, em móvel envidraçado, com quatro longas pernas de cor azul, silenciou na distância dos muitos anos contados pra trás! O homem que gritava a macaxeira e que ouvia de nós outros a indagação cavilosa – “Como se chama a sua mãe?” -, calou-se, vive a mudez das lembranças, apenas, na surdez das impiedosas mudanças!Mudou tudo, afinal, mudaram as pessoas da rua e os parentes, há filhos jovens e sobrinhos novos contados em maioria! Morreram os velhos! E morreram, do mesmo jeito, os autores e os atores dos antigos pregões, dos matinais e dos vespertinos, anônimos cantadores das ruas, de cujas transformações nasceram muitas das dores d'alma e das saudades. Sequer existem babás a cantarolarem a própria desdita: "Quem faz o bem/Recebe sempre o mal/...". E nem meninas brincando: "Eu sou rica/Rica/Rica/...". Tampouco adolescentes em flor entoando: "...Serei eu rico/Ou muito pobre?/ Que será/Será/Aquilo que for/Será/O futuro não se vê/Que será/Será....". Morreram as tias velhas, viúvas e mal-amadas, que versejavam: "Nos cigarros que eu fumo/Te vejo nas espirais/Nos livros que eu tento ler/Em cada página tu estás/Me deixa ao menos/Por favor/Pensar em Deus..."."Tragam as vasilhas/Tragam as vasilhas...", na verdade, é o refrão das manhãs ou das tardes dos sábados e dos domingos e "Abram as cortinas! Abram as cortinas!" encerra, afinal, o domingo, antecipando inquietudes.

Crônica escrita há quase uma dezena de anos, antes da mudança de casa, da Boa Vista para o Rosarinho.

Texto oferecido a um grande amigo de infância e de adolescência, de juventude e de agora, da maturidade dos meus anos: Moisés Diniz

domingo, agosto 26, 2007

Segundo repouso em Atlântida

Tela - Cristina Prieto


Opacos eus que não se escondem
Ardendo na pele,
Nas bordas do mundo.

Correm dos Ciclopes, das Sílfides.
E se espraiam na morna areia atlântica.
Trazem o ocaso para a linha da cintura,
Avermelhando o amarelo chacra.

Translúcidos eus esfumaçados
Abordam as marés como gaivotas.
E os bicos mergulham e sentem frio.
Arrepiam-se.
Piam.

O mar será minha guarida.
Essa piscosa casa nacarada,
Tritônica.

Sílvia Câmara

sexta-feira, agosto 24, 2007

Homilia

Igreja N.Sra. das Graças - foto Sílvia Câmara

Em homenagem ao 87º aniversário da Tia Áurea, lembrei-me dessa crônica do meu irmão Ruy.

Nessa sexta-feira, especialmente, não irei ao nosso tradicional encontro etílico-poético no Ideal Clube porque, muito cedo, eu, Rossana, minhas irmãs e cunhados, que estão chegando ao Ceará, iremos ao sertão-central para um evento inusitado, cuja dimensão, em escala reduzida, reproduz o tormento do el-rei que José Saramago narra no seu maravilhoso Memorial do Convento.

Tudo isso porque minha Tia, Áurea Teixeira de Carvalho, que completará 85 anos de matriarcado e de servidão ao cristianismo, resolveu (desconfio que sabiamente) pleitear por antecipação a sua merecida vaga no trono do Altíssimo, dilapidando a prometida herança que deixaria para seus sobrinhos, na construção de uma Igreja com três naves, nas terras altas e inférteis que estão em poder da família de mamãe (os Teixeira de Carvalho) há 200 anos, dita Fazenda Belo Horizonte, situada nos algodoais extintos do triângulo das plumas, entre Iguatú, Acopiara e Truçu.

Nada, com efeito, é mais frustrante para um homem apartado das religiões do que fingir alegria ao saber que as posses e haveres de uma Tia bondosa e sem filhos, mal serviram para edificar um equipamento religioso nos cafundós do Judas. Como as glórias celestes são mesmo tentadoras, vamos nós, os sobrinhos deserdados, à Santa-Missa inaugural, que será celebrada pelo Bispo de Iguatú na manhã do domingo, dia 19/06 e eu, precisamente eu, o único Ateu convicto da família, fui o escolhido para fazer a homilia aos presentes, e seguidamente farei a leitura do testamento oficial de doação do sacro-equipamento, diante dos políticos da região, dos homens da ordem crucífera e dos muitos pobres que lá estarão como serviçais dos convidados de honra. Parece certo que é precisamente a contradição que justifica a religião.

Além do vinho tinto e dos etílicos que me encomendaram para a alegria dos homens de batina, levarei comigo um peso enorme na consciência, pois não é fácil trair a confiança de um velho amigo e irmão das letras, ainda mais sendo este o autor do clássico, O Bêbado de Deus. E bem mais difícil é deixar de atender ao pedido de uma tia que outrora tanto me ajudou e, apesar de saber do meu ceticismo crônico (influência do mestre João Ubaldo Ribeiro), ainda hoje mantém meu nome em sua lista de necessitados de orações e graças divinas.

Ocorreu que ela, Tia Áurea, ao vir em minha casa com o convite para a inauguração de sua Igreja, viu, e logo se pôs de joelhos, algo que não me pertence, mas que estava, por mero descuido meu, enfeitando um móvel da sala. Trata-se da imagem de uma Santa de madeira maciça que um dia encheu os olhos do poeta Gerardo Mello Mourão e ele, embevecido, ousou subtraí-la de uma Igreja dos Inhamuns. A imagem da Santa chegou em minhas mãos há dois meses, com um bilhete do poeta dando conta da sua enfermidade e pedindo-me para devolvê-la, se possível sem ser visto, à Igreja de onde fora surrupiada há 20 anos. Que coisa endiabrada é poder dar artes e como as imagens estão imbricadas com a fé.

Claro o poeta não cometeu tal delito por simples licenciosidade poética, nem por maldade cristã, tão comum entre os homens de fé puríssima, mas porque o bardo das Ipueiras, desde o dia em que decidiu abandonar o claustro de um Seminário das Minas Gerais, nunca mais conseguiu conter seus ímpetos de pecador renitente diante das coisas sacras que se vê por aí, abandonadas nas velhas igrejas. Quem conhece bem o poeta GMM, sabe da sua atração incontida pelos objetos sacros. Tanto é verdade que, a porta principal do seu apartamento, no Rio de Janeiro, um dia foi a porta de uma Igreja que ele ajudou a restaurar na Bahia. E lá ainda se pode ver uma vasta coleção de imagens (mais de trezentas peças), que ele guarda e cultua como quem possui uma estatueta do Oscar. Que poder misterioso tem a fé e o fingimento?

Eu, que andava bem longe das questões religiosas, agora me vejo envolvido num dilema de consciência e, sinceramente, ainda não sei se devo me arriscar numa aventura sinistra aos Inhamuns (terra de gente valente) para devolver uma imagem surrupiada por um amigo arrependido, ou se devo atender aos apelos de minha pia e seráfica Tia Áurea, doando de uma vez por todas a imagem dessa Santa, a qual, por não saber do nome, me ocorre batizá-la de Santa Furtada, como furtada foi a minha herança, para justificar a Igreja de minha Tia.

Quiçá os (Teixeiras, Nogueiras, Carvalhos e Rufinos) que por lá estarão me ouvido do púlpito, acreditem mesmo que me tornei o mais devotado dos Câmaras, principalmente se me ocorrer, no momento solene da homilia, a luminosíssima inspiração de lançar uma idéia ainda mais luminosa e bizarra: a candidatura de minha querida Tia Áurea à beatificação, ainda em vida, como é natural e óbvio o seu merecimento. Claro que a homilia será um momento de grande emoção, sobretudo quando olharmos as lágrimas de felicidade caindo dos olhos meigos e piedosos de minha Tia. É verdade que ela, por sabedoria, bondade e desprendimento, não deixará nada que possa se tornar objeto de disputas entre os sobrinhos, mas pelo menos teremos a felicidade de ver como o Bispo e sua corte se sairão dessa (sinuca-de-bico) diante do coro de rezas e cânticos que minha Santa Tia Áurea ensinou aos pobres e humildes que ainda vivem na região mais esquecida deste pecaminoso Brasil de meu Deus.
Ruy Câmara

domingo, agosto 19, 2007

Compartimentos



Depois de nascida aquela que veio por vir
Desaguou correnteza abaixo.
Como qualquer um faria se transido estivesse,
De forças e aflição.
E mesmo assim vem vindo.
De onde não se sabe tinha ido.
Re-volta.
Só por pura inquietação esse retorno.
Se fosse boa vontade,
nem tinha medo de virem buscar
Tudo o que estava escondido.
As coisas todas enterradas
Os medos todos debaixo do tapete.
Uma vida inteira guardada numa gaveta.
Gaveta da memória.
Para que trocar esse móvel de lugar?
Deixa o marrom virar bege
E o bege desbotar quieto, sonolento.
Bem da cor da lembrança.

Sílvia Câmara

quinta-feira, agosto 16, 2007

Travessura


Ah! Menino
Também corri muito
atrás dos mesmos arranhões que você.
Papai-do-Céu nos observava
E as estrelas
Eram mais inatingíveis, não é?
E a bola
era o mundo
que batia no muro.
Todos os doces
Machucavam nossos sorrisos...
Que fizemos dos sonhos,
menino?
Foi a vida que se tornou um
esconde-esconde

Agostina Akemi Sasaoka

segunda-feira, agosto 13, 2007

No silêncio das árvores

Compañia - Aranjuez en otoño

Ainda há

o agitar dos ramos,

movidos pelo vento...

No silêncio das águas

ainda há

o marulho das vagas

ou o cantar da correnteza

atravessando as pedras...

No silêncio dos céus,

ainda há

o palpitar das estrelas

carregado de mensagens.

Aprende que não basta falar

para atingires o silêncio...

Enquanto os cuidados te agitam

ainda não penetraste

na área do grande silêncio.

E aí, somente aí,

se escuta a voz de Deus.

Dom Hélder Câmara ( In um olhar sobre a cidade)

sexta-feira, agosto 10, 2007

Travessia


Se eu quiser,
farei qualquer coisa.
Mas não sei como arrumar minha alma
e deixá-la encostada,
esperando a hora de levantar vôo.
Pegar carona no vento norte
atravessar mares
e repousar em Atlântida.
Sílvia Câmara

quarta-feira, agosto 08, 2007

O trem carrega os sapotis

Manilkara zapota




Derrama-se no horizonte
Uma linha em curva.
Os trilhos dão a volta
Descortinando um pomar.

Enceguecida, ela espera.
Toda semana é assim:
Um apito avisa que
É janeiro, e os sapotis amadurecem.

Sílvia Câmara

terça-feira, julho 24, 2007

Raízes



Ah meu Deus
Por que eu não consigo
Fazer nascer esse poema?
As palavras já estavam escolhidas.
Onde será que elas se esconderam?

Agora já não lembro mais nada.
Só umas raízes que se pegaram em mim
Adormeceram no meu sono
Enroscaram-se feito réptil
E o limo tomou conta de nós.

Sílvia Câmara

Destaque

O meu amigo Namibiano Ferreira mandou-me a seguinte mensagem:
"Silvia veja meu blog Cores & Palavras tem la uma surpresa para vc."

Fui lá e ele havia postado:
"O blog Labirinto do Sol e da Lua fez o favor de nomear Cores&Palavras para Blogs Destaque Cupido Fonte de Amor. Passo a nomear os seguintes:

Obrigada, Namibiano por incluir o Brisa.

domingo, julho 15, 2007

Pavana para a 1ª Princesa


Uma estrela me guiava
E eu nem sabia
Que florescia por dentro.
Era outubro e uma princesa estava por vir.

Alegria primeira e única:
Tremor de estrelas no ventre,
Sonhos de gaivotas no verão
E ela crescia.

Chegaram as chuvas de julho
E sendo da água, como um coral ondulando,
Aporta no cais de amores escolhidos:
Ela, temperamento forte desde que abriu os olhos.

A leveza veio-lhe na ponta dos pés,
No movimento do corpo e das mãos,
Bailando como uma pluma,
Luz em profusão.

Como te receberei?
Trouxeste a marca da nossa ligação.
Chegas já sabendo que o meu sol nasce do teu riso.
Duas almas antigas conhecidas marcadas pelas mãos

Amiga fiel. Ritmo perfeito.
Verdadeira como ouro puro.
Contigo não há meias-palavras, nem subterfúgios,
Mas sendo da água, facilmente marejas.

Novamente vem o desejo
De ter um dom e saber dizer
O que só o amor pode expressar
E servir-te este amor em taças de luz.

Pedi a Deus que te ofertasse
Caminhos de seda por onde passear mansamente.
Que te protegesse e desse vida suave,
Como passarinho pousado no ninho.

E assim Ele te fez
Cabelos mutantes como as nuvens,
Do fundo dos teus olhos brotam flores
Noturna ingenuidade variando em todos os tons de rosa.


Sacerdotisa que orna os altares
Passeias do azul mais suave ao marinho mar
Dizes triviais coisas de profunda sabedoria
E o mundo se torna feliz e mais belo.

Mas hoje percebi o ar cheio de anjos
E sua transparência era tão bela
Que jamais imaginei desgarrar-me
Por isso prendi-me nas suas mornas asas

E a terra das estrelas impregnou-me o ser.
Cantai, pois, serafins e querubins.
Arlequins do bosque dos tempos
Hoje o dia é dela, da nossa número 1.

Inquieta, menina, traquina
Alegre, engraçada, plural
Mil, Milzinha, Mila, Milk,
Sempre, eternamente amor, Camila!


Para a nossa princesa nº 1 — Camila — que hoje completa 23 anos.Feliz aniversário, “Brahma Chopp”.

(Se eu soubesse, dançaria para ti uma pavana, como não sei, transformei-a em versos com muito amor.)
Sílvia Câmara

quarta-feira, junho 27, 2007

Lua em poemas




A minha amiga Nancy Moisés presenteou-me com este e outros selos.
Obrigada, Nancy e a Guga também.

domingo, junho 17, 2007

Tormento



Dizes-me maravilhas e vais embora
Nesta hora calma da noite,
Quando o sono chegou e se foi.
Aprendo que ouvir é deleite
Fogo invadindo a escuta
Incendiando o pensamento quieto
Atordoando o sonhar.
Atiças e vai-te embora.
Da próxima vez ficarei surda.

Sílvia Câmara

domingo, maio 27, 2007

Para falar do meu amor





Por seres parecido com o mar
É que te amo.
Mesmo mudando a cada lua
E a cada quarto de dia,

As tuas marés repetem-se e
Renascem, como onda nova

A cada novo sonhar.
O sangue que corre em tuas veias
É como o sol: irradia e expande

Por isso logo te reconheço
Alma gêmea que aportou
Num cais chamado coração.

Sílvia Câmara


( Dedicado ao César, meu marido - companheiro nesta jornada e nas próximas - , que hoje completa 49 anos ). Parabéns, Cesito. Feliz Aniversário e que Deus continue a te proteger.


terça-feira, maio 22, 2007

Sobre como descobrir um espião

"Looking for love" - Glauce Cerveira


Entre a roda e o chão
Há um tanto de vida
Que persegue a condução
E o sol vai alto.

Vai do amanhecer à noitinha.
E como dois desconhecidos
Percebo-te a me espreitar
Escondido no ônibus.

É como se encontrasse Deus
Mas não falo com estranhos
E tu voltas ao céu.



Sílvia Câmara


segunda-feira, maio 14, 2007

Sobre como deixar a vida


Seja prático!
Arrume sua vida
Enquanto tem tempo.

De repente
Ela pode querer partir

Olha aí
Aproveite para ser ocioso
Não há nada que pague
Um copo de orvalho
Sorvido na fonte.

Sumo de corola de flor
Antídoto para mau-humor.
Em outro século, inspiração.

Quantos floristas com a pena em punho
Jamais mencionaram uma certa florzinha
Que ao anoitecer
Oferece as pétalas ao sonho.

Poeta!
Aprende a ir.

Sílvia Câmara

domingo, maio 13, 2007

Orquídeas e mães


Se há uma coisa que eu adoro

são as flores. Todos sabem.

Mas se há outra coisa que nada iguale

São os meus três amores.


E a natureza resolveu,

assim, semana passada,

dar-me de presente

um trio de orquídeas boninamareladas.


Lindas! Ambas.

Agora eu, ofereço

as flores, as filhas e este texto

A quem iniciou tudo isso.


Parabéns, Mãe!

Exemplo de força e perseverança.

Ainda hoje se preocupa tanto.
Esquece de que não somos mais criança.
Deus te proteja!
Amém!

Silvia Câmara

quarta-feira, maio 02, 2007

Sobre como encontrar a paz

Nasceram hoje na varanda

Havia um exército em mim
Mas de tanto guerrear
Não sei mais se ganho
Ou se ganhando perco.

Na dúvida
Preferi atirar flores.

Quando a trombeta soou
Hasteei a bandeira branca
Agora estou em paz

E meus fantasmas repousam.
Posso cantar vitória.
Sílvia Câmara

terça-feira, maio 01, 2007

Sobre como encontrar um anjo

Tela - The angel - M. Fernanda
Escrevo-me pelas curvas de um verso
E nesta aventura insana
Aparece diante de mim
Um anjo

Não sei bem por onde entrou
Pela fresta da janela
Ou a brisa lhe anunciou
Talvez habite por perto.

Suspira ou sopra um sonho
Tornado tinta no lastro das horas
Pluma de ave
Ou folha caída

De um astro coberto de girassóis
Aguando um mar-dormitório
De desígnios piscosos.

Para falar de amor
É preciso um anjo.
De mãos dadas com ele faço a travessia.

Sílvia Câmara

segunda-feira, abril 30, 2007

Sobre como aquecer uma cabana


Abres a porta dos fundos
E trazes o frio do mundo
Vindo não sei de onde
Chega contigo o aroma.

Cheiro de mato quebrado
De terra orvalhada
Vem contigo o abandono
Das pedras jogadas ao rio.

O peixe chega antes
Anunciado pela urgência
Do vento e da fome

Velejando na rota do sonho
Chegas sem ferir o tempo
E aqueces a casa inteira.

Sílvia Câmara

Sobre como ser dissimulado

photo by Michael Mackul
Tudo o que puder
Dê fim.

Os lençóis sujos
As cartas inúteis
As fotografias de antigos amores.

Seja exatamente como as raposas:
Expie a presa atentamente
E roube seus ovos.

A fim de que não procrie
E não exista rival para ti.
Depois disso,

Poderás dormir o sono eterno
Como uma escória
E a verdade poderá vir à tona.

Sílvia Câmara

quinta-feira, abril 26, 2007

Para Marcela





Queria saber dizer do meu amor
Hoje mais do que em muitos dias.

Lembro que quando chegaste,
Aquela noite de abril era só alegria
- Qual manhã de primavera -
E minha Lua nascia.

Qualquer esforço em buscar palavras
Não atenderá ao meu desejo (que não finda)
De expressar esse sentimento:
Amor por uma Lua tão linda.

Imenso. Intenso

Como uma alada fantasia de sons
Marcela é forte: retine como bronze,
Luz súbita que nos captura em vários tons
E, no entanto é açucena suave de manso olhar.


Quero, como antes, servir-te amor em ramalhetes,
Presentear-te com notas musicais
E com elas, cantarás a cantiga do infinito.
Clássicos, rock, reggae, pop, rimas, versos, o soneto mais bonito.

Farás música de canto de pássaros,
De céus e flor
De córregos e rios,
De amor eterno e dores de amor.

Serás barco que leva o rio
Condutora do próprio destino.
Eis Marcela — sonho sonhado junto,
Estrela emprestada do céu na terra luzindo.

Preciso da voz do Poeta para dizer que
“A luz que vem de Marcela
É a luz que nasce e canta
Serena no peito dela...

A luz tão luz de Marcela
— luz que é sombra da luz dela—
Nasce nela, vive dela.”


Guardadora fiel de segredos quase encantados
Espírito antigo arco-iriscando nossa vida
Leal companheira
De plantas, pesca, compras, bichos de espécie sortida.

Tão muito,
Tão tudo,
Tão bela,
Tão esplendidamente nobre,

Assim é o meu bebê, Marcela.

Feliz aniversário, Lua
E com estes escritos, mais uma vez, há 17 anos dou-te o meu amor.




Sílvia Câmara

terça-feira, abril 17, 2007

Constatação

Tela by SilosGalery


Por que dizer que o outro não existe?
Em algum momento da vida
É preciso dizer que minha existência é intransferível.
Estou suspensa diante de uma infinita beleza:
O mundo.
Não fossem aquelas pessoas
Ele seria lindo!

Sílvia Câmara

Silêncios



Naquele fim de mundo
Habitado por ermos silêncios
Poderia ter nascido qualquer sentimento.
Mas o que acontece dentro da terra
Não dá para ser pensado antes.
É como agora:
Há dentro de mim uma vontade
De dizer calada,
Só com a alma
O quanto ficou daquele setembro.


Sílvia Câmara

segunda-feira, abril 16, 2007

Um poema-siará

Tela de Jaime Carbonell


Um dia nasci siará
Eram tantos sonhos de ave
Que atrapalhavam a manhã.

Seria um vôo-alvorada
Noite toda fazendo serão
Nas palhas-casa da bananeira.

Quando cresci siará
Cavalgava o mato alto
Catando cajus e jatobás.

Herança rezadeira
Doces de narupemba
Goiabas de minha avó.

Cacimba vazando no inverno
Carreira de camaleão
Pulando de galho-em-galho.

Ramagem que voa ao vento
Um dia parti siará
Reluzindo na garganta um grito.

Bússola voltada ao norte
Raiz em duna plantada
Aportando em outra duna.

Do cantar forte da jandaia
Às brancas areias de águas escuras
Um dia morri siará.

Sílvia Câmara

.

segunda-feira, abril 09, 2007

Sêo Câmara

Francisco Nobre Câmara é o 1º , de olhos puxados. Esta foto foi tirada na véspera de embarcarem para a Itália, em 1943/44. O outro, é seu amigo Cícero, fiel companheiro de muitas estrepolias de caserna.

Nasceu em Pedra Branca, num lugarzinho lá no interior do Ceará, primogênito de José Casemiro e Lúcia Nobre Câmara. Descendentes de portugueses e índios-caboclos. Aos seis anos tornou-se órfão de pai.

Por conta do novo matrimônio da mãe com o tio, determinou, naquela pouca idade, morar com o padrinho. Daí para aprender todos os ofícios foi um pulo. Inteligência privilegiada, memória fantástica e bom-humor invejável. Resolveu ir voluntariamente "defender o Brasil" na 2ª Guerra Mundial. Foi e voltou, a prova somos nós - os 5 filhos.

Adorava casa cheia e mesa farta. Amanhecer os domingos com música e ele cozinhando as famosas "coxinhas especiais de galinha", levando em nossas camas uma vitamina de frutas que continha mais de um milhão de nutrientes, para engordar as crias.

Contar causos era sua especialidade. A outra era fazer amizades. Não podia ver uma mulher bonita, mas jurava ser fiel: Deus sabe!

Medo não existia no seu dicionário. Solução, sim. Adorava nos dar livros de presente. Homem de-sete-instrumentos, até hoje utilizamos os ensinamentos dele em jardinagem, construção, amizades, culinária, eletricidade, gentileza, etc, mas o que a gente precisa mesmo colocar em prática é essa maneira que ele tinha de " BRINCAR DE VIVER".

Parabéns Sêo Câmara! Hoje são 83 anos. Aos 74 deu tchau pra gente e foi brincar no andar de cima.
Valeu, Pai!! Um beijo da sua Pindoba

segunda-feira, abril 02, 2007

Depois de dizer está dito

De tudo o que aprendi
Ficou uma importância:
A palavra é que faz a hora.
Mudam as estações, muda o mundo
Muda a vida.
A palavra dita permanece.
Com o tempo, amarelece na lembrança
Chega a ficar quase branca.
Ainda assim é nódoa.

Sílvia Câmara

sábado, março 24, 2007

Saudade... de nada


Eu quis fazer uma poesia.
Eu quis dizer que estava com saudade,
sem saber
do que
sequer...
Sabe?
Eu tinha uma vontade louca
de estar com você!
Mas,
quem é você?
Minha saudade sem nome!?
Eu quis dizer num verso simples
meu canto de amor,
minha solidão....
Estou só.
(Você, onde está?...
Em que pensa nessa hora?
Estará como eu
escrevendo agora?)
São três horas da madrugada,
a saudade de você
Não me deixa dormir.
Olhe,
o luar lá fora
- dá gosto se ver!...
(Onde estará você?...)
Eu quis fazer do verso
uma canção pra você
(Será que você está mesmo
dormindo agora?
Ou está numa roda de amigos,
batendo papo e tomando chopp?
É incrível eu não saber
onde está você...!)
Eu quis fazer uma poesia pra você...
Eu quis lhe falar do luar...
Eu quis lhe dar um nome...
Eu quis lhe encontrar...
Eu quis matar a saudade
que não de deixa dormir
E só fiz espertar...
(É melhor pensar que sei seu nome,
que vou poder lhe encontrar,
que você está dormindo agora,
e que eu sou sua amada...
minha saudade...
de nada!)

Da minha amiga Tânia França ( que não quer ser chamada Poeta)

terça-feira, março 20, 2007

Epifania

Tela - Música popular no céu - Jaume Carbonell

No meio do espetáculo.
De repente como um relâmpago
Dei-me conta de que nunca havia visto
Uma cuíca ao vivo.
Assim, pertinho de mim.

Sílvia Câmara

segunda-feira, março 12, 2007

Ao molde da lua


Se um dia
Um luar prateado surgisse
E pedisse para eu ir embora
Eu iria.
Feliz assim:
Azulzinha de lua.

Sílvia Câmara

segunda-feira, março 05, 2007

Patativa do Assaré- *05/03/1909


Fui em lágrimas desfeito
de viola sobre o peito
sentar à beira do mar.
Queria cantando as águas
amenizar minhas mágoas
Dar alívio ao meu pensar.
Mas ao dedilhar o pinho
ouvi um riso escaninho
do mar sisudo dizer:
volta, volta, violeiro
o seu canto corriqueiro
não me dá nenhum prazer.
Eu tenho por entre as brumas
por estas brancas espumas
do meu dorso de cristal,
a quadra maravilhosa ,
cantando melodiosa
do poeta Juvenal.
Os seus versos ainda vagam,
são nuvens que não se apagam
na minha praia sem fim
volta, volta, violeiro...
...sobre a relva abandonei
e louvando o poeta amado,
que tudo tinha cantado
ajoelhado rezei.

( Poema de Patativa do Assaré composto em homenagem ao poeta Juvenal Galeno)

sábado, março 03, 2007

de Salmos do fogo – in As solas do sol)

Raul Lourenço, Portugal - 2005
Eu mais escrevo
Partindo da época
Em que não sabia ler.

Minha infância ainda é cedo.
A janela se abria para dentro.
O vidro ficava fora,
Um copo de sede.

Fabrício Carpinejar

Os perfumes


Alma das flores - quando as flores morrem,

os perfumes emigram para as belas,

trocam lábios de virgens - por boninas,

trocam lírios - por seios de donzelas!


E ali - silfos travessos, traiçoeiros,

voam cantando em lânguido compasso,

ocultos nesses cálices macios

das covinhas de um rosto ou dum regaço.


Castro Alves ( aniversariante de março, 14/03/1847)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O salto

Foto da nascente da Cachoeira da Fumaça - Chapada Diamantina/BA
Sílvia Câmara



Foi exatamente assim
Correndo mundo,
Revivendo em outros povos,
Apreendendo a vida,
Em caminhos às vezes bifurcados
Por veredas nem sempre habitadas
Por estradas quase perdidas
Entre um passo e outro.
Descobri.
Naquele canto da minha sala,
Como um abat-jour antigo
Estava eu,
Guardada.
Na espreita:
Cobra guardando o bote
Aguardando a vítima
Quase pronta para o salto
O que existe dentro de mim?
Escrevo para pular mais rápido.

Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mecejana


Como se abraçasse o tronco duma árvore
Com os braços tão longos de medo.
O vento chegava prenunciando chuva:
Chovia chuva de vento.

Foi lá que puseram os ninhos
as aves de vôo lento.

Revoando e voejando
No branco da luz,
Justo na sombra do tempo.

Era um amanara – chuvoso dia na língua primeira.
Dia de nascer saudade.


Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Assalto à alegria

Escultura de Camille Claudel
( L'Abandon / Sakuntala)



Para Camille Claudel

Eu quero uma alegria Beethoven
Schiller na curva do tempo
Corais em conchas acústicas.

Eu quero uma alegria água
Em ondas de tubos espessos
Farra de espumas em desleixo
Molhando as coxas da praia.

Eu quero essa alegria doce
Ternura e carne, alvoroço
Modigliani ou Monet em esboço
Camille ao vivo e a cores.

Eu quero uma alegria jogo
Serpente encantada do novo
Alvorecer de manhãs em agosto.

Eu quero essa alegria aos saltos
Princesa de toda galáxia
Luxúrias em cometa de prata
Cinismo de vida a jorrar.

Mas eis o momento em chamas
Gemidos, o roubo, o assalto,
E esse dia bendito
Deixou a alegria pra lá.

Somos mesmo
Reféns
Dos que amamos.

Da minha amiga-poeta-pernambucana Cláudia Cordeiro.
É verdade, somos mesmo reféns dos que amamos!!! Disse tudo, Poeta.)


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

...e eu fico fazendo de conta que foram feitas para mim...presunçoooosa!!!

Foto - Silvia Câmara- Tela de Floriano Teixeira - daqui de casa

Silvia, cicio em si, brisa levinha,
susurro no silvado, silva poética,
no silêncio de um vôo de andorinha,
a esquiva graça e a sugestão estética.

Carlos Drummond de Andrade - "Dedicatórias para brotos"


Muitas vezes, de repente
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente

Manoel Bandeira - "Sílvia Maria"
( Poesia oferecida por minha amiga-poeta Conceição Pazzola - apesar de que não sou Maria, sou Helena!)


08:45 - hora em que nasci, depois de a mamãe ter ido umas três vezes (alarme falso) ao Hospital Militar, em Fortaleza- Ceará

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Transporte de palavras

Foto- lalocomotiva.org

Nossas palavras têm correspondência com o mundo?
Quero saber quando e onde elas se encontram.
Numa esquina da vida, talvez.
Ou é o coração quem fala mais alto?
De qualquer sorte
O que existe entre a prosa e a poesia?
Por que será que o poeta
Mesmo sonhando prosa
Faz seu texto em poesia?
Nesse longo caminho percorrido
Onde nem tudo são flores
O que haverá para lançar sementes?
Como disse Drummond:
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo,
Meu coração.
Dá licença?


Sílvia Câmara

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dois de fevereiro


Diz-se que em fevereiro crescem flores no mar.
Sílvia Câmara
Maria Bethânia, no cd Memória das Águas, canta: “Amores são águas doces/ Paixões são águas salgadas/ Queria que a vida fosse/ Essas águas misturadas.
É lindo!!!