sexta-feira, agosto 24, 2007

Homilia

Igreja N.Sra. das Graças - foto Sílvia Câmara

Em homenagem ao 87º aniversário da Tia Áurea, lembrei-me dessa crônica do meu irmão Ruy.

Nessa sexta-feira, especialmente, não irei ao nosso tradicional encontro etílico-poético no Ideal Clube porque, muito cedo, eu, Rossana, minhas irmãs e cunhados, que estão chegando ao Ceará, iremos ao sertão-central para um evento inusitado, cuja dimensão, em escala reduzida, reproduz o tormento do el-rei que José Saramago narra no seu maravilhoso Memorial do Convento.

Tudo isso porque minha Tia, Áurea Teixeira de Carvalho, que completará 85 anos de matriarcado e de servidão ao cristianismo, resolveu (desconfio que sabiamente) pleitear por antecipação a sua merecida vaga no trono do Altíssimo, dilapidando a prometida herança que deixaria para seus sobrinhos, na construção de uma Igreja com três naves, nas terras altas e inférteis que estão em poder da família de mamãe (os Teixeira de Carvalho) há 200 anos, dita Fazenda Belo Horizonte, situada nos algodoais extintos do triângulo das plumas, entre Iguatú, Acopiara e Truçu.

Nada, com efeito, é mais frustrante para um homem apartado das religiões do que fingir alegria ao saber que as posses e haveres de uma Tia bondosa e sem filhos, mal serviram para edificar um equipamento religioso nos cafundós do Judas. Como as glórias celestes são mesmo tentadoras, vamos nós, os sobrinhos deserdados, à Santa-Missa inaugural, que será celebrada pelo Bispo de Iguatú na manhã do domingo, dia 19/06 e eu, precisamente eu, o único Ateu convicto da família, fui o escolhido para fazer a homilia aos presentes, e seguidamente farei a leitura do testamento oficial de doação do sacro-equipamento, diante dos políticos da região, dos homens da ordem crucífera e dos muitos pobres que lá estarão como serviçais dos convidados de honra. Parece certo que é precisamente a contradição que justifica a religião.

Além do vinho tinto e dos etílicos que me encomendaram para a alegria dos homens de batina, levarei comigo um peso enorme na consciência, pois não é fácil trair a confiança de um velho amigo e irmão das letras, ainda mais sendo este o autor do clássico, O Bêbado de Deus. E bem mais difícil é deixar de atender ao pedido de uma tia que outrora tanto me ajudou e, apesar de saber do meu ceticismo crônico (influência do mestre João Ubaldo Ribeiro), ainda hoje mantém meu nome em sua lista de necessitados de orações e graças divinas.

Ocorreu que ela, Tia Áurea, ao vir em minha casa com o convite para a inauguração de sua Igreja, viu, e logo se pôs de joelhos, algo que não me pertence, mas que estava, por mero descuido meu, enfeitando um móvel da sala. Trata-se da imagem de uma Santa de madeira maciça que um dia encheu os olhos do poeta Gerardo Mello Mourão e ele, embevecido, ousou subtraí-la de uma Igreja dos Inhamuns. A imagem da Santa chegou em minhas mãos há dois meses, com um bilhete do poeta dando conta da sua enfermidade e pedindo-me para devolvê-la, se possível sem ser visto, à Igreja de onde fora surrupiada há 20 anos. Que coisa endiabrada é poder dar artes e como as imagens estão imbricadas com a fé.

Claro o poeta não cometeu tal delito por simples licenciosidade poética, nem por maldade cristã, tão comum entre os homens de fé puríssima, mas porque o bardo das Ipueiras, desde o dia em que decidiu abandonar o claustro de um Seminário das Minas Gerais, nunca mais conseguiu conter seus ímpetos de pecador renitente diante das coisas sacras que se vê por aí, abandonadas nas velhas igrejas. Quem conhece bem o poeta GMM, sabe da sua atração incontida pelos objetos sacros. Tanto é verdade que, a porta principal do seu apartamento, no Rio de Janeiro, um dia foi a porta de uma Igreja que ele ajudou a restaurar na Bahia. E lá ainda se pode ver uma vasta coleção de imagens (mais de trezentas peças), que ele guarda e cultua como quem possui uma estatueta do Oscar. Que poder misterioso tem a fé e o fingimento?

Eu, que andava bem longe das questões religiosas, agora me vejo envolvido num dilema de consciência e, sinceramente, ainda não sei se devo me arriscar numa aventura sinistra aos Inhamuns (terra de gente valente) para devolver uma imagem surrupiada por um amigo arrependido, ou se devo atender aos apelos de minha pia e seráfica Tia Áurea, doando de uma vez por todas a imagem dessa Santa, a qual, por não saber do nome, me ocorre batizá-la de Santa Furtada, como furtada foi a minha herança, para justificar a Igreja de minha Tia.

Quiçá os (Teixeiras, Nogueiras, Carvalhos e Rufinos) que por lá estarão me ouvido do púlpito, acreditem mesmo que me tornei o mais devotado dos Câmaras, principalmente se me ocorrer, no momento solene da homilia, a luminosíssima inspiração de lançar uma idéia ainda mais luminosa e bizarra: a candidatura de minha querida Tia Áurea à beatificação, ainda em vida, como é natural e óbvio o seu merecimento. Claro que a homilia será um momento de grande emoção, sobretudo quando olharmos as lágrimas de felicidade caindo dos olhos meigos e piedosos de minha Tia. É verdade que ela, por sabedoria, bondade e desprendimento, não deixará nada que possa se tornar objeto de disputas entre os sobrinhos, mas pelo menos teremos a felicidade de ver como o Bispo e sua corte se sairão dessa (sinuca-de-bico) diante do coro de rezas e cânticos que minha Santa Tia Áurea ensinou aos pobres e humildes que ainda vivem na região mais esquecida deste pecaminoso Brasil de meu Deus.
Ruy Câmara

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