sábado, dezembro 09, 2006

Bentevi e não-lhes-vi


Bentevi chegou com uma semente no bico. Parou na grade e bateu, bateu. A semente caiu. Ele se contentou em comer a casca.
Ontem uma grande amiga me falou que precisa cuidar do pai e da mãe. As outras irmãs esconderam-se nos seus medos. Porque o medo faz isso com as pessoas — tira-as do convívio— . Depois, a culpa deve ser maior.
A culpa pega a pessoa e joga num buraco enorme. O medo também. A diferença deve estar na cor. O buraco do medo é negro. O da culpa é cinza. No negro você não enxerga nada, só sente aquela enormidade lhe abraçando, tomando conta, invadindo os claros, os recantos, os absconsos. O cinza é cruel. Chega na claridade, vai escurecendo. Deixa você sofrendo na acinzentação da alma. Vai cozinhando em água morna...demorada.
Precisa aparecer um jeito de mudar essa cor. Acho que só a superação consegue clarear esses sentimentos. É a luz que aparece lá no final do túnel. Quando você chega lá é como nascer de novo. Ver a luz pela primeira vez.
Penso numa forma de ajudar. Mas sou tão pequena. E o mundo é um gigante.
Bentevi voltou. Trouxe seu par. Estão construindo um ninho. Quando o trabalho é repartido, fica mais fácil.
Voaram.
Silvia Câmara

2 comentários:

Conceicao Pazzola disse...

Sílvia querida,

Sábias e lindas as palavras de seu texto. Parabéns, amiga. Quantos preferem o cinzento das atitudes, incorporam os não-lhes-vi em sua concha egoísta, tao sem propósito. Vamos chamar muitos bem-te-vis, com eles clarear bastante este mundo cinza até torná-lo rosa, a cor da alegria.
Grande abraço,

Conceiçao.

Verônica Aroucha disse...

Querida Sílvia, chego como um Bentevi.
Preciso da semente, mas me contento com a casca.
De negro e cinza, já enxerguei, hoje consigo voar baixo, mas com uma luz de sol radiante da esperança...
Adorei seu texto. Muito reflexivo, amiga.
Abraço
Verônica